segunda-feira, fevereiro 25, 2002

De pequenino...


Quantas vezes já se ouviu dizer que de pequenino se torce o pepino? Muitas. Mas, confessemos, são sempre os mais velhos quem proferem o ditado em relação aos mais novos. Aliás, ditados e provérbios, frases feitas e estereótipos são coisas de velhos. Eu que o diga que não escrevo n’ O Proverbiota duas linhas sem a protecção de um “ditote”. Então, a que propósito vem hoje à baila o pepino? Da juventude. “Juventude” é apenas uma palavra e se forem ao dicionário (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo) verão que é até a última da letra J. Nem de propósito: os últimos são os primeiros... Nunca se falou tanto de juventude e nunca um dado biológico (velho quanto a idade da vida) foi tão manipulado socialmente como este o é hoje pelos detentores das rédeas do poder. Há juventudes para todos os gostos e são um produto de consumo que dá a muita gente a oportunidade de ganhar uns tostões para sair da juventude e... entrar na vida adulta – o mundo dos adúlteros... Só uns exemplositos: a juventude rasca dá trabalho à polícia e aos técnicos de prevenção social; a juventude bem comportada tem uma Secretaria de Estado que lhes passa cartão, os jovens dos partidos políticos têm assento no parlamento, os jovens empresários têm subsídios a fundo perdido, as juventudes dos clubes têm patrocinadores para as claques, os sub16, os sub20, os sub21 são o alfobre do nosso futebol, a Banca disponibiliza crédito jovem, etc. etc. e tal. Sem falar das televisões onde a juventude é o prato forte das audiências... Eis a juventude que chega à idade adulta com o pepino... torcido.

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Quem cabritos vende e cabras não tem...


Ultimamente, com a campanha eleitoral e a insistência dos candidatos sobre a necessidade de responder às exigências de Bruxelas para equilibrar as contas, de forma a que os gastos correspondam à riqueza produzida, lembrei-me do ditado quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem. A sabedoria popular deveria tranquilizar a erudita sabedoria dos políticos: o povo entende bem o discurso da chapa ganha, chapa gasta. Mas... habituámo-nos a que o terreiro do paço distribua à tripa forra e abra os cordões à bolsa e são cada vez mais os que vivem às sopas do Estado. Isto é, o Zé Povinho tira sempre um provérbio do manguito. Ora, quanto ao dos cabritos, sabe o povo que os não há, sem cabras e cabrões. De maneira que... acautelem-se os políticos porque há muito anda o povo a perguntar onde vão os cabrões arranjar tantos cabritos...

segunda-feira, fevereiro 18, 2002

Lágrimas de crocodilo


A poluição é um assunto que já polui o espírito mais do que os resíduos poluem os corpos. Trata-se de uma autêntica indústria do medo. Se quem semeia ventos colhe tempestades, quem semeia medos, colhe débeis mentais... Não semeiem tantos medos: há seiscentos mil anos que o homem anda a poluir o ambiente e fá-lo na medida em que avança com a sua inteligência. Aliás, é com a consciência cada vez mais aguçada que o homem se vai afastando do tal paraíso terrestre pelo qual agora tanto chora. São lágrimas de crocodilo, venham elas das associações de defesa do ambiente, da anónima sociedade civil, dos governos, de outros poderes, de mais saberes, de quem os informa e outros patuscos que tais. Quem quiser mudar o ambiente tem que mudar de vida: não jogar no tabuleiro da utilidade, mas no da gratuidade. Deixem de ser tão úteis, meus senhores, porque é a utilidade que polui o mundo. Se querem tocar nas coisas para as transformar em ouro, não se queixem agora de que o ouro não mata a sede.

quinta-feira, fevereiro 14, 2002

Um descuido sem intestinos...



Tudo (mas mesmo tudo, o universo, o mundo e a vida) teria começado com um grande estoiro, o Big Bang. Mas pelos vistos foi um pum!... inorgânico, inodoro e inaudível, pois os cientistas dão por adquirido que só apareceram os primeiros cagagéssimos de vida, muitos, muitos e muitos biliões de anos após rebentar a bolha inicial. Os cientistas nada dizem sobre a bolha antes de à bolha lhe ter dado na bolha e... descuidar-se. Mas contam tim por tim toda a história que se seguiu ao cataclismo inicial.
Resumindo a história : o primeiro pum deu lugar ao espaço e ao tempo com tanta energia que trezentos milhões de anos depois (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história...) já havia estrelas e galáxias bem arrumadinhas, girando sobre si ou à volta umas das outras.
Bem arrumadinhas, é como quem diz: encontrão daqui e encontrão dali, deu-se um acaso feliz, o nascimento do sol, já lá vão cinco biliões de anos (mais bilião, menos bilião, não interessa para a história...).
Com o sol, aquece além e aquém, e arrefece ali e acolá, e vice-versa e de cima para baixo e de baixo para cima, num caldeirão de lama, apareceram umas bichezas, que são assim como o resultado de uma revolta da matéria que queria ter voto na matéria. É a vida!. Mas que vida tão chata. Não há bela sem senão: descobre a vida que para ter voto sobre a matéria teria que fazer pela vida... morrendo. A luta pela sobrevivência.
A partir desta constatação (a morte da bicheza) foi um ver se te avias com todos os biotas a ultrapassarem-se a si mesmos: peixes que viram repteis, repteis que viram pássaros, ovos que viram mamas para os mamíferos mamarem nas tetas da vida. Os mamíferos andam a mamar há duzentos milhões de anos (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história).
O maior mamão de todos ainda estava por nascer. Claro que já havia uns macacos de imitação, mas tiveram que pelar o rabo e fazer muita ginástica para endireitar o corpo e dar cabeçadas para arredondar o crânio e fazer sexo cara a cara, sem horas marcadas pelo ritmo do cio. E nasceu o homem, sem o cio do macaco, mas cioso por macaca quanto o seu antecessor ainda o é por banana. Estamos por esta altura a uns seiscentos mil anos deste “post” (mais mil menos mil, não interessa para a história...).
Temos portanto o homem, um macacão de primeira. É o responsável por esta história: há meia dúzia de anos (mais meia, menos meia, não interessa para história) o nosso homem confirma que tudo começou com o tal pum inicial. Quando lhe perguntam pela origem intestina desse descuido iniciático, responde, matreiro, que o segredo é a alma do negócio.

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Com a verdade me enganas


A sabedoria popular é o bom senso em marcha. Os sentidos não enganam a mente, pelo contrário, é a mente que engana os sentidos. Os sentidos sentem e a mente... mente. E a mente mente com a verdade. Nós esquecemo-nos com muita frequência do que é a verdade. Na civilização ocidental que foi beber a razão na Grécia, o direito em Roma e a moral em Jerusalém, o termo verdade tem, pelo menos, dois sentidos: no mundo greco-latino, a verdade é a conformidade com a proposição necessária e o seu contrário é o erro; no mundo judaico cristão, a verdade é a fidelidade a um compromisso e o seu contrário é a mentira. O espectáculo da ciência e da fé está à vista: a ciência não erra, mas diz que não há regra sem excepção; a fé não mente, mas diz que há males que vêm por bem... O que nos vale, é de novo a sabedoria popular: anda meio mundo a enganar outro meio. Uns com a mente mentem; outros acreditam, mas são (de)mentes. Mas a solução é de caras. Cada um arranja a cara-metade que lhe der jeito.

domingo, fevereiro 03, 2002

a brincar a brincar...


- Tenha paciência, Senhor Einstein, Deus joga mesmo aos dados. Mas não é para testar a sorte; é para lembrar aos homens que deixem de procurar coerência onde ela não faz falta – no mundo que transcende o pensamento. Coerência é coisa que só funciona na cabeça dos homens. Só a incoerência permite que um ser nascido do chão possa voar.